domingo, 24 de maio de 2009

Soolenidade da Ascensão do Senhor

No domingo 24 de maio de 2009 celebraremos a Ascensão do Senhor.

Mas, o que significa ascensão? Ascender significa "subir", portanto, ascensão significa "subida".
Nesta data comemoramos a "subida" de Jesus aos céus quarenta dias após a sua ressurreição no dia da Pácoa. Ele promete a vinda do Espírito Santo aos discípulos e manda eles irem pelo mundo pregar o Evangelho.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Dom Salomão Ferraz, Bispo Titular de Eleuterna, da Santa Igreja Católica Apóstolica Romana.


Dom Salomão Ferraz
Fundador da Venerável Ordem Católica Apóstolica de Santo André.
Falecido aos 9 de maio de 1969 na cidade de São Paulo,Estado de São Paulo.
Portanto, são 40 anos da entrada de nosso fundador para a Eternidade.

A Odem de Santo André presente em João Pessoa no Bairro Planalto da Boa Esperança em Valentina - João Pessoa, convida a todos para participar em sua honra da celebração 2 Santas Missas na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Santo André Apóstolo.
Em 09/05/2009 as 18:00 hs,Santa Missa em Latim,Versus Dei,no Rito Tridentino.
Em 10/05/2009 as 17:00 hs,Santa Missa em português,Versus Populi,no Rito de Paulo VI.
Todos os amigos da Ordem de Santo André estão convidados.
Abraços

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Dom Salomao Ferraz, como Pastor

Bispos brasileiros no Concilio do Vaticano II, entre eles, Dom Salomao Ferraz, o terceiro da direita para a esquerda

Dom Carlos chegando a Igreja de Cristo, em SP, para sagrar Dom Salomao Ferraz Fonte Mensageiro de Na. Sra Menina

Dom Carlos impoe as maos, sagrando Dom Salomao Ferraz na Sucessao Apostlica Fonte Mensageiro de Na. Sra Menina

Dom Salomao recebe o báculo episcopal das maos de Dom Carlos. Fonte Mensageiro de Na. Sra Menina

Dom Salomao faz a profissao de fe catolica. Fonte Mensageiro de Na. Sra Menina

CNBB mantém restrições aos casais em segunda união.

01/05/2009 - 08h05


São Paulo - Os casais de segunda união, que partiram para novo casamento após a separação, são convidados a participar da vida comunitária nas paróquias, mas não podem comungar, pois a Igreja não admite o divórcio. E, pela manifestação da 47ª Assembleia-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que termina hoje em Itaici, município de Indaiatuba, a situação não vai mudar.
Um manifesto em favor da família aprovado pela assembleia refere-se de leve aos casais em segunda união, ao pedir que a Pastoral Familiar, Movimentos, Serviços e Institutos da Igreja acolham "as (famílias) que se encontram em situações especiais". O acolhimento consiste em engajar recasados em celebrações litúrgicas, embora sem acesso aos sacramentos.
D. Orlando Brandes, arcebispo de Londrina (PR) e presidente da Comissão Episcopal para a Vida e a Família, lamentou o tom genérico do manifesto. "Pela nossa proposta, o texto deveria ser mais contundente, mas a maioria dos bispos foi contra, optando por uma manifestação mais positiva." O arcebispo de Londrina revelou que a assembleia de Itaici levantou a questão da família a pedido de parlamentares católicos e evangélicos. "Eles nos pediram um manifesto sobre a posição da CNBB para que possam trabalhar nessa linha." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Apoio ao bem estar e solidez ao patrimonio da criação de Deus a Familia. OSA- JPA - PB

domingo, 12 de abril de 2009

Missa do Sabado Santo - Vígilia Pascal.

Aquem vós o procurais nãos estar mais aqui. Ele ressuscitou. ALLELUIA.














Missa do Santo

Páscoa: memória e projeto de Justiça e Libertação.

Texto extraido e puplicado da Sintese Teológica do Seminarista Antonio Araujo Silva - Nova Iguaçu - 2005. Seminário Paulo VI.

"No tempo de Jesus, a páscoa judaica congrega em Jerusalém os fiéis de Moisés para a imolação e a manducação do cordeiro pascal; ela comemora o Êxodo que libertou os hebreus da escravidão egípcia. Hoje a Páscoa cristã reúne em toda parte os discípulos de Cristo na comunhão de seu Senhor, verdadeiro Cordeiro de Deus; ela os associa à sua morte e à sua ressurreição, as quais os livraram do pecado e da morte. De uma festa à outra festa a continuidade é evidente, mas mudou-se de plano passando da antiga à nova Aliança por intermédio da Páscoa de Jesus."
De acordo com o teólogo C. Duquoc, o Crucificado é o Ressuscitado: o sentido da vida pascal de Jesus não se separa de sua palavra e de seu comportamento terreno. Isso dá condição de manifestar sua função libertadora, pois a relação entre fé pascal e a vida de Jesus tem como objetivo dar um conteúdo a essa mesma libertação. A perspectiva de libertação de Jesus não se limita ao material e nem ao corpo, mas atinge a totalidade do ser humano. Essa relação conduz a uma abertura que revela seu poder de libertação na vitória sobre a morte. Na páscoa está presente a luta que Jesus travou por causa da Justiça, expressão do amor e do perdão de Deus que Ele manifestou.
A Cruz e a Ressurreição, conclui o teólogo, nada são em si mesmas se não estiverem unidas à vida terrena de Jesus e à sua Palavra. Assim também a vida terrena de Jesus e sua Palavra só recebem sua plenitude a partir da dialética entre Sexta-feira Santa e Páscoa.

2.3.1 A morte de Jesus como conseqüência da luta por justiça.

Em sua vida pública, Jesus se apresentava como o profeta do Reino de Deus, que anunciava a proximidade de Deus como aquele que vinha restaurar a ordem, pois o sistema vigente era excludente. Jesus não temeu em denunciar tudo o que não estava de comum acordo com a vontade de Deus, convidando a todos à conversão, para que se estabelecesse uma relação com o Reino de Deus.
Por essa razão, assumiu uma atitude desafiadora em face daqueles que promoviam a injustiça e, portanto, dos verdadeiros criadores de uma situação de morte para a maioria do povo.
De acordo com o teólogo Sinivaldo S. Tavares, em seu livro Cruz de Jesus e Sofrimento do Mundo, a morte na cruz aparece como conseqüência do projeto de Jesus, o qual questionava as estruturas socioeconômicas, culturais e religiosas existentes e que criavam leis e normas injustas que por sua vez eram sobrepostas ao povo para que as cumprisse de forma escandalosa e subseqüente por razões do seu status quo. A cruz de Jesus, enfim, denuncia e desmascara qualquer tentativa que se encontra na tradição para querer legitimar as situações existentes. Era comum àqueles que manipulavam as leis e a religião usar de atitudes ideológicas. As interpretações das leis e da palavra de Deus eram feitas fora do seu contexto original e de forma fundamentalista com pretexto para justificação do sofrimento induzido alimentando, assim, o fatalismo e o cinismo. Esse sofrimento iníquo e imposto ao povo é condenado por Deus, por ser fruto da ação do pecado no seio da sociedade humana.
A presença do pecado como força de destruição do projeto de Deus é vencido por Jesus, o profeta e o justo. Ele morre pela justiça e pela verdade, denunciando o mal que fazia acontecer um fechamento do sistema, ao pretender monopolizar a verdade e o bem a seu favor. Esse fechamento individualista é o pecado do mundo; o teólogo Sinivaldo S. Tavares afirma:

O servo é escolhido por Deus com a missão de instaurar o direito e a justiça (Is 49, 8) e por isso se torna vítima dos seus perseguidores. É considerado objeto de desprezo e contado entre os malfeitores (Is 53,3-12). Cristo morreu por causa deste pecado banal e estruturado.

Para o teólogo Renold J. Blank, a morte de Jesus se torna sinal exterior e visível daquilo que a linguagem apocalíptica chamou de o fim do mundo. Conforme o autor;

A destruição catastrófica do mundo acontece na cruz. A morte de Jesus nesse patíbulo da vergonha é para ele ‘o fim do seu mundo’. Um ‘fim do mundo’ mesmo. O fim daquele mundo em que Jesus tinha esperado, de forma plena, a vinda do Reino de Deus. Esta expectativa se quebrou. O Reino não se realizou de maneira definitiva e Jesus morre. O mundo dele está sendo destruído, e esta destruição é um fim catastrófico. É tão catastrófico que o próprio Jesus formaliza, no seu grito, a condição apocalíptica de um mundo em que Deus está ausente. [...] Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?[...] (Mc 15,34).

O mesmo teólogo testifica que no acontecimento da cruz, em seguida com a morte de Jesus, Ele vive um drama existencial de dimensões apocalípticas. Paulo aos romanos, afirma que Jesus vive as dores do parto (Rm 8, 22), o que leva a gerar um mundo novo, em que há uma luta apocalíptica entre vida e morte. Com tudo isso, dentro dessa visão escatológica de que o mundo de Jesus é destruído, e como também há destruição do mundo antigo, ocorre neste sentido o grande juízo apocalíptico em que na pessoa de Jesus todo mundo antigo é julgado. A partir desse acontecimento também ressurge em Jesus a realização de um mundo novo no qual Deus está presente.
Segundo Blank, [...] o mundo real é marcado pela simultaneidade de estruturas opostas e contraditórias. O teólogo percebe, a partir da compreensão desse mundo e de sua história, que as imagens mitológicas da morte súbita do mundo deve passar por uma re-interpretação tendo em vista as concepções escatológicas de Jesus. Quando o autor analisa tais concepções, não percebe a existência da presença da visão cósmica de Jesus dentro dos sucessivos enfoques míticos. O mundo visto por Jesus é bem diferente: [...] junto ao trigo cresce o joio [...] (Mt 13, 24-30), [...] no meio do anti-Reino se faz presente o Reino de Deus [...] (Lc 17, 20-21). [...] na massa é colocado o fermento para crescer [...] (Lc 13,20-21). O que marca a concepção de Jesus é a consciência de simultaneidade e de processo de transformação.
O ser humano de hoje espera que no futuro todos os seus anseios sejam realizados. O teólogo a definiria como plenificação, incluindo também o cosmo na sua íntegra. Mediante esta concepção escatológica, Blank fundamenta o discurso escatológico como algo que deve manter viva a esperança nesta plenificação, porque é nela que se revela para o ser humano, de maneira total e absoluta, a bondade profunda de um Deus que ama a sua criação.
Um outro ponto importante que devemos observar diante desse evento crístico é o sentido que se dava ao sacrifício, neste caso veremos o sentido sacrifical da morte de Jesus. O culto sacrifical do Antigo Testamento simboliza o retorno a Deus de uma humanidade cuja condição é estar separada d´Ele. O objetivo do sacrifício é o de partilhar da mesma vida desse Deus a quem se oferece o sacrifício. O ser humano se encontra em situação de angústia por não se harmonizar com a intenção criadora de Deus. Neste sentido o sacrifício só pode ser entendido a partir de uma situação de pecado. No caso de Jesus, diz o teólogo C. Duquoc, que o Cristo oferece o seu próprio corpo em sacrifício, aceita voluntariamente a condição carnal cujo termo é a morte. Ele assume a condição de privação da glória de Deus. O autor cita Paulo para fundamentar essa realidade; o Cristo se fez pecador por causa do homem. Por sua morte, Jesus subtrai à esfera do carnal; faz de sua morte o sinal de seu próprio dom e retorno a Deus, como testemunho de sua liberdade e amor pelos homens.
O projeto de Jesus e sua imagem histórica permanecem indelevelmente marcados por sua conclusão trágica na cruz. A cruz representa um fracasso das expectativas suscitadas pelo anuncio do Reino de Deus, com isso surgiram então muitas perguntas duvidando da ação salvífica de Deus. De modo particular entre os neoconvertidos. Seria merecedora de crédito a promessa da realeza libertadora de Deus feita por alguém que acabou miseravelmente na cruz?
Para superar esta contradição, os primeiros cristãos tentaram dar uma interpretação religiosa positiva à morte de Jesus na cruz. Jesus foi entregue à cruz pelos homens, mas Deus o ressuscitou e o glorificou.
Segundo o biblista Rinaldo Fabris:

A morte escandalosa de Jesus podia ser incluída numa visão religiosa, sempre que se pudesse inserir no plano de Deus, revelado nas Escrituras. Alguns textos bíblicos do padecimento do “Justo” eram relidos como profecias da paixão e morte de Jesus.

Diante desta reflexão, a tradição cristã, para reformar o caráter sacrifical da morte de Jesus, põe em evidencia a iniciativa de Deus que “entregou” o próprio Filho em sinal de amor, perdão e reconciliação para os homens. Assim, a morte de Jesus deixa de ser um espetáculo de infâmia e torna-se a hora da glória; a passagem de Jesus deste mundo para o Pai, a suprema revelação do seu amor redentor.
O mesmo biblista, afirma que a morte de Jesus é o castigo e a satisfação devidos pelos pecados da humanidade e que com sua morte dolorosa:

[...] Jesus tornou-se vítima substitutiva ou vicária dos homens pecadores, expiando-lhes a culpa de uma vez por todas; por isso a sua morte é o sacrifício perfeito e definitivo que ab-roga o da antiga aliança. Com a morte de Cruz, Jesus mereceu para os homens não só o perdão de Deus, mas também a vida.

A mesma idéia é também sublinhada por Leonardo Boff, ao afirmar que a redenção que nos foi dada por Jesus consistiria não em primeiro lugar no sofrimento ou mesmo na morte, mas na sua atitude de amor quando se entregou ao sofrimento e morte e que se exprimiu quer na auto-entrega confiante ao Pai quer na oferta do perdão aos seus acusadores e de solidariedade com todos os homens pecadores. Continua o teólogo, o que é redentor em Jesus não é propriamente nem a cruz, nem o sangue, nem a morte, tomados em si mesmos, mas é a sua atitude de amor, de entrega e de perdão.
Portanto, a morte de Jesus é verdadeiro sacrifício, porque ele fez de sua vida uma autêntica existência sacrifical. Neste sentido, a morte de Jesus, de acordo com L. Boff, não constitui outra coisa senão a confirmação da orientação fundamental por ele mesmo dada à vida como: pró-existência e serviço (cf. Lc 22,27) e amor até o fim (Cf. Jo 13,1).

Sexta feira Santa - Elói, Elói, lamá sabactani.

Piedade Senhor pois pecamos contra vós, só contra vós foi que pecamos...









domingo, 5 de abril de 2009

domingo, 22 de março de 2009

A FORMAÇÃO PARA O SERVIÇO DA CATEQUESE

1. Necessidade da formação catequética

A formação dos catequistas é atualmente uma das tarefas mais urgentes de nossas comunidades, pois, “o catequista é de certo modo, o intérprete da Igreja junto aos catequizandos” (DCG 35).

“Qualquer atividade pastoral que não conte para sua realização, com pessoas realmente formadas e preparadas, coloca em risco a sua qualidade” (DGC 234), portanto, é preciso contar com uma adequada pastoral de catequese que possa:

Suscitar vocações para a catequese;
Distribuir melhor os catequistas entre os diversos setores;
Organizar a formação dos catequistas (de base e permanente);
Atender pessoal e espiritualmente os catequistas e formar um grupo de catequistas integrado à vida da comunidade.

O objetivo principal da formação do catequista é o de prepará-lo para comunicar a mensagem cristã, àqueles que desejam entregar-se a Jesus Cristo. A finalidade da formação requer, portanto, que o catequista se torne o mais capacitado possível a realizar sua missão.

2. Critérios para a formação do catequista

O Diretório Geral para a Catequese no nº 237, apresenta alguns critérios inspiradores para formação do catequista:

Formar catequistas com fé profunda; clara identidade cristã e eclesial; profunda sensibilidade social

Capazes de transmitir não apenas um ensinamento, mas também uma formação cristã integral, desenvolvendo “tarefas de iniciação, de educação e de ensinamento”. São necessários catequistas que sejam ao mesmo tempo, mestres, educadores e testemunhas.

Capazes de superar “tendências unilaterais divergentes” e de oferecer uma catequese plena e completa. Isto é, precisamos saber conjugar fé e vida, num sentido social e eclesial.

Há também necessidade de se investir na formação específica para o leigo, grande maioria na catequese.

e, por último, o DGC aponta para a importância fundamental da formação pedagógica. “Seria muito difícil para o catequista improvisar, na sua ação, um estilo e uma sensibilidade para os quais não tivesse sido iniciado durante a sua própria formação.” (DGC 237).

3. Dimensão da formação

Além dos critérios inspiradores, a formação do catequista possui as seguintes dimensões: SER, SABER E SABER FAZER.

“A mais profunda se refere ao próprio ser do catequista, à sua dimensão humana e cristã. A formação de fato deve ajudá-lo a amadurecer, antes de mais nada, como pessoa, como fiel e como apóstolo. Depois há o que o catequista deve saber para cumprir bem a sua tarefa. (...) Enfim há a dimensão do saber fazer, já que a catequese é um ato de comunicação. A formação tende a fazer do catequista um “educador do homem e da vida do homem” (DGC 238).

O catequista precisa estar em contínua formação humana e cristã. Por isso, não bastam os cursinhos de início de ano. Estes são muito mais momentos de sensibilização para o trabalho catequético e não indicadores de que, ao participar destes encontros, o catequista esteja em condições de realizar bem a tarefa pastoral.

4. Elementos da formação

A formação deve levar em conta o duplo movimento de fidelidade: a Deus e ao homem.

BÍBLICA
DOUTRINAL
LITURGICA
SPIRITUAL
FIDELIDADE A DEUS
FORMAÇÃO ANTROPOLÓGICA, PEDAGOGICA, SOCIOLÓGICA, METODOLOGICA
FIDELIDADE AO HOMEM

A missão que o Catequista é chamado a realizar exige:

a) intensa vida sacramental e espiritual;

b) familiaridade com a oração;

c) profunda admiração pela mensagem cristã;

d) uma atitude de caridade, humildade e prudência que permita ao Espírito Santo realizar sua obra fecunda nos catequizandos.

Sendo a catequese um processo permanente de educação da fé, também a formação do catequista deve ser permanente, pois o catequista terá sempre coisas para aprender em toda a sua vida. “Além de testemunha, o catequista deve ser mestre que ensina a fé. Uma formação bíblico-teológica lhe fornecerá um conhecimento orgânico da mensagem cristã articulada a partir do mistério central da fé, que é Jesus Cristo” (DGC 240).

5. Conteúdos a serem aprofundados

O conteúdo desta formação doutrinal é exigido pelas diversas partes que compõem todo o projeto orgânico de catequese:

As três grandes etapas de história da salvação: Antigo Testamento, Vida de Jesus Cristo e História da Igreja;

Os grandes núcleos da mensagem cristã: Símbolo, Liturgia, Vida Moral e Oração.

A Sagrada Escritura deverá ser como a alma desta formação e o Catecismo da Igreja Católica o ponto de referência doutrinal fundamental, juntamente com os materiais catequéticos publicados. Além disso, precisamos conhecer os documentos do Magistério da Igreja. A leitura e reflexão destes livros deverão estar sempre presentes na vida do catequista.

Para uma formação integral, “é necessário que o catequista entre em contato, pelo menos, com alguns elementos fundamentais da psicologia (...) As ciências sociais procuram o conhecimento do contexto sócio-cultural em que o homem vive e pelo qual é fortemente influenciado” (DGC 242).

Além destes conhecimentos, precisamos aprender alguns elementos da ciência da comunicação: dinâmicas de grupo, utilização dos recursos didáticos e meios audiovisuais e também aproveitar das riquezas da informática.

Por fim, é importante que o catequista conheça o valor do planejamento, da avaliação e alguns princípios de metodologia.

Como se vê, a formação do catequista é algo complexo e dinâmico. Precisamos de humildade e entusiasmo para aprender sempre.

6. Sugestões de atividades formativas

Não podemos esquecer que a formação do catequista acontece, em primeiro lugar, na comunidade cristã. “É nesta que os catequistas experimentam a própria vocação e alimentam constantemente a própria sensibilidade apostólica”(DGC 246).

Para isso o coordenador procurará motivar o grupo de catequistas para reuniões mensais de preparação dos encontros catequéticos. Deve-se ver o melhor dia e horário para cada grupo (catequese infantil, iniciação eucarística, perseverança, adultos, especial, ainda que sejam em dias diferentes para cada grupo.

Daí a necessidade de haver coordenadores específicos para cada grupo.

• garantir um encontro anual para o “grupão” de catequistas se reunir e aprofundar algum tema necessário para a sua formação integral;

• incentivar a participação dos catequistas em cursos da paróquia, ou em encontros formativos da região, setor e arquidiocese.

Vamos aprender a trabalhar com representatividade? Se não der para enviar todos, insista para que, ao menos um catequista esteja presente nestes momentos e torne-se agente multiplicador na comunidade.

Não esquecer-se dos auxiliares, que se preparam para ser catequistas: eles merecem uma atenção especial, a mesma qualidade de formação.

Incentivar a participação dos catequistas na Escola da Fé Paroquial.

“Formar os formadores”, esta deve ser uma meta constante da equipe de coordenação da catequese. Logo, a formação “possibilitará o crescimento do catequista no equilíbrio afetivo, no senso crítico, na unidade interior, na capacidade de relações e de diálogo, no espírito construtivo e no trabalho de grupo” (DGC 239). Iintegrar o conhecimento numa vida correta, inspirada pelos valores do Evangelho para anunciar a Palavra de Deus, é a meta do catequista.

7. Conclusão:

Ninguém nasce catequista. Aqueles que são chamados a esta missão tornam-se bons catequistas através da prática, da reflexão e da preparação adequada. Para colaborar na formação de discípulos de Cristo, o catequista deve ser, em primeiro lugar, um discípulo amoroso, humilde, alegre e fiel.

A fé foi colocada por Deus no coração do homem. A tarefa do catequista é a de cultivar este Dom, alimentá-lo e ajudá-lo a crescer primeiro em seu coração para que deixe transbordar esta experiência de vida cristã para os irmãos.

Siglas utilizadas:

DCG – Diretório Catequético Geral, Sagrada Congregação para o Clero, 1971.
DGC – Diretório Geral para a Catequese, Sagrada Congregação para o Clero, 1997.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Pequeno roteiro da História da Igreja


Ano 370 - Principia o uso de altares e velas. O culto dos santos foi introduzido por Basílio de Cesareia e Gregoriano Nazianzeno. Inicia-se o uso de incenso por influência pagã.
Ano 400 - Paulino de Nola ordena que se reze pelos defuntos e ensina o sinal da cruz feito no ar.
Ano 590 - Gregório, o Grande, cria o Purgatório.
Ano 607 - O imperador Phocas dá ao Bispo de Roma o direito de primazia universal sobre a cristandade, depois do 2º Concílio de Constantinopla.
Ano 609 - O culto à Virgem Maria é obra de Bonifácio IV. A invocação dos anjos e dos santos é posta como lei.
Ano 670 - Começa a dizer-se a missa em latim pelo papa Vitélio.
Ano 758 - Cria-se a confissão auricular pelas ordens religiosas do Oriente.
Ano 787 - Pelo 2º Concílio de Nicéia foi estabelecido o culto das imagens e a adoração da cruz e relíquias de santos.
Ano 795 - o incenso foi posto por lei nas cerimônias da igreja por Leão III.
Ano 803 - Foi criada a festa da Assunção de Virgem pelo Concílio de Mogúncia.
Ano 818 - Aparece, pela primeira vez, nos escritos de Pascácio Radberto, a doutrina da transubstanciação e a missa, como se vê nos nossos dias.
Ano 884 - o papa Adriano III aconselha a canonização dos santos.
Ano 998 - É estabelecido o dia de finados.
Ano 1000 - a confissão auricular genareliza-se e os ministros da igreja arrogam para si o "ego te absolvo". A missa passa a designar-se sacrifício e organizam-se as peregrinações.
Ano 1003 - o papa João XIV aprova a fasta das almas nos fiéis defuntos
Ano 1059 - Nicolau II cria o colégio de cardeais - o conclave
Ano 1074 - O papa Gregório VII decreta obrigatório o celibato dos padres.
Ano 1076 - É declarada a infalibilidade dos papas.
Ano 1090 - Pedro, o Ermitão, inventa o rosário
Ano 1095 - Urbano II cria as indulgências
Ano 1125 - Aparece a idéia da imaculada concepção de Maria
Ano 1164 - Pedro Lombardo enumera os sete sacramentos da Santa Madre Igreja
Ano 1200 - O concílio de Latrão impõe a transubstanciação e a confissão auricular.
Ano 1227 - Entra a campainha na missa por ordem de Gregório IX.
Ano 1229 - O concílio de Toulouse estabeleceu a inquisição que foi confirmada por Gregório IX, em 1232, e logo aos dominicanos.
Ano 1264 - Urbano IV determina a festa do Corpo de Deus.
Ano 1300 - Bonifácio VIII determina o jubileu
Ano 1311 - Inicia-se a primeira procissão do Santíssimo Sacramento
Ano 1317 - João XXII ordena a Avé-Maria
Ano 1360 - Começa a hóstia a ser levada em procissão
Ano 1414 - O concílio de Constança definiu que a comunhão do povo deve ser a hóstia somente, sendo o cálice reservado para o padre. Os Concílios de Pisa, Constança e Basileia declararam a autoridade do Concílio superior à do Papa.
Ano 1438 - O Concílio de Florença abre a porta ao Purgatório, que Gregório, o Grande, havia criado.
Ano 1563 - O Concílio de Trento definiu que a tradição é tão valiosa como a própria Palavra de Deus, Os livros apócrifos foram aceitos como canônicos.
Ano 1854 - Pio IX proclama o dogma da imaculada conceição de Maria.
Ano 1870 - O concílio Vaticano I declara a infalibilidade do papa.
Ano 1950 - O papa Pio XII proclama o dogma da Assunção da Virgem Maria ao Céu

Como surgiu a oração do Santo Rosário


A oração do Santo Rosário surge aproximadamente no ano 800 à sombra dos mosteiros, como Saltério dos leigos. Dado que os monges rezavam os salmos (150), os leigos, que em sua maioria não sabiam ler, aprenderam a rezar 150 Pai nossos. Com o passar do tempo, se formaram outros três saltérios com 150 Ave Marias, 150 louvores em honra a Jesus e 150 louvores em honra a Maria.
No ano 1365 fez-se uma combinação dos quatro saltérios, dividindo as 150 Ave Marias em 15 dezenas e colocando um Pai nosso no início de cada uma delas. Em 1500 ficou estabelecido, para cada dezena a meditação de um episódio da vida de Jesus ou Maria, e assim surgiu o Rosário de quinze mistérios.
A palavra Rosário significa 'Coroa de Rosas'. A Virgem Maria revelou a muitas pessoas que cada vez que rezam uma Ave Maria lhe é entregue uma rosa e por cada Rosário completo lhe é entregue uma coroa de rosas. A rosa é a rainha das flores, sendo assim o Rosário a rosa de todas as devoções e, portanto, a mais importante.
O Santo Rosário é considerado a oração perfeita porque junto com ele está a majestosa história de nossa salvação. Com o rosário, meditamos os mistérios de gozo, de dor e de glória de Jesus e Maria. É uma oração simples, humilde como Maria. É uma oração que podemos fazer com ela, a Mãe de Deus. Com o Ave Maria a convidamos a rezar por nós. A Virgem sempre nos dá o que pedimos. Ela une sua oração à nossa. Portanto, esta é mais poderosa, porque Maria recebe o que ela pede, Jesus nunca diz não ao que sua mãe lhe pede. Em cada uma de suas aparições, nos convida a rezar o Rosário como uma arma poderosa contra o maligno, para nos trazer a verdadeira paz.
O Rosário é composto de dois elementos: oração mental e oração verbal.
No Santo Rosário a oração mental é a meditação sobre os principais mistérios ou episódios da vida, morte e glória de Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe.
A oração verbal consiste em recitar quinze dezenas (Rosário completo) ou cinco dezenas do Ave Maria, cada dezena iniciada por um Pai Nosso, enquanto meditamos sobre os mistério do Rosário.
A Santa Igreja recebeu o Rosário em sua forma atual em 1214 de uma forma milagrosa: quando a Virgem apareceu a Santo Domingo e o entregou como uma arma poderosa para a conversão dos hereges e outros pecadores daquele tempo. Desde então sua devoção se propagou rapidamente em todo o mundo com incríveis e milagrosos resultados.

Como Meditar o Terço - Explicação inicial


Foi Nossa Senhora que, em Fátima, recomendou aos três pastorinhos para que rezassem o Terço todos os dias, a fim de alcançarem a paz.

Para quem reza apenas um Terço por dia, meditam-se os
Mistérios Gozosos, às segundas e quintas-feiras;

Mistérios Dolorosos, às terças e sextas-feiras;

Mistérios Gloriosos, às quartas-feiras, sábados e domingos.
Como rezar o Terço

1. Fazer o Sinal da Cruz

2. Fazer o Oferecimento do terço

3. Rezar 1 Credo, segurando a cruz do terço

4. Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta grande logo após a cruz

5.Dizer: Louvemos a Maria, Filha bem amada do Pai Eterno.
Em seguida rezar 1 Ave Maria, segurando a conta pequena que se segue

Dizer: Louvemos a Maria, Mãe admirável de Deus Filho.
Em seguida rezar 1 Ave Maria, segurando a conta pequena que se segue

Dizer: Esposa fidelíssima de Deus Espírito Santo.
Em seguida rezar 1 Ave Maria, segurando a conta pequena que se segue

6. Rezar 1 Glória ao Pai

7. Em seguida, Oh Meu Jesus

8.Mistérios Gozosos - Rezar às segundas e quintas-feiras

No primeiro mistério contemplamos a anunciação do Anjo e encarnação do Verbo.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No segundo mistério contemplamos a visitação de Nossa Senhora a sua prima Santa Isabel.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No terceiro mistério contemplamos o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo em Belém.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No quarto mistério contemplamos a apresentação do Menino Jesus no templo e a purificação de Nossa Senhora.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No quinto mistério contemplamos a perda e encontro do Menino Jesus no templo, discutindo com os doutores da lei.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

Mistérios Dolorosos - Rezar às terças e sextas-feiras

No primeiro mistério contemplamos a oração e agonia de Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No segundo mistério contemplamos a flagelação de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No terceiro mistério contemplamos a coroação de espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No quarto mistério contemplamos Nosso Senhor Jesus Cristo com a cruz às costas a caminho do Calvário.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No quinto mistério contemplamos a crucifixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

Mistérios Gloriosos - Rezar às quartas-feiras, sábados e domingos

No primeiro mistério contemplamos a gloriosa ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No segundo mistério contemplamos a ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No terceiro mistério contemplamos a descida do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No quarto mistério contemplamos a assunção de Nossa Senhora aos Céus em corpo e alma.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

No quinto mistério contemplamos a coroação de Nossa Senhora como Rainha dos Céus e da Terra.
Rezar 1 Pai Nosso, segurando a conta maior que se segue
Rezar 10 Ave Marias, segurando as 10 contas menores que se seguem
Rezar 1 Glória ao Pai
Em seguida, Oh Meu Jesus

9. Após o Terço, rezar 1 Pai Eterno

10. Fazer o Agradecimento

11. Para encerrar, rezar 1 Salve Rainha

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Home / Bento XVI Altera letra Terça-feira, 03 de fevereiro de 2009, 10h00 - Papa divulga mensagem para a Quaresma

Da Redação, com Rádio Vaticano

Foi divulgada hoje, 3, a mensagem do Papa Bento XVI para a Quaresma de 2009, com o tema "Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome".

Participaram da apresentação, na Sala de Imprensa da Santa Sé, o Presidente do Pontifício Conselho “Cor Unum”, Cardeal Paul Josef Cordes, o secretário do Conselho, Monsenhor Karel Kasteel, o vice-secretário, Monsenhor Giampietro Dal Toso, e Josette Sheeran, diretora executiva do Programa Mundial de Alimentos da ONU.

Leia a íntregra

Queridos irmãos e irmãs!

No início da Quaresma, que constitui um caminho de treino espiritual mais intenso, a Liturgia nos propõe três práticas penitenciais muito queridas à tradição bíblica e cristã – a oração, a esmola, o jejum – a fim de nos predispormos para celebrar melhor a Páscoa e deste modo fazer experiência do poder de Deus que, como ouviremos na Vigília pascal, "derrota o mal, lava as culpas, restitui a inocência aos pecadores, a alegria aos aflitos. Dissipa o ódio, domina a insensibilidade dos poderosos, promove a concórdia e a paz" (Hino pascal). Na habitual mensagem quaresmal, gostaria de refletir este ano em particular sobre o valor e o sentido do jejum. De fato a Quaresma traz à mente os quarenta dias de jejum vividos pelo Senhor no deserto antes de empreender a sua missão pública. Lemos no Evangelho: "O Espírito conduziu Jesus ao deserto a fim de ser tentado pelo demônio. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome" (Mt 4, 1-2). Como Moisés antes de receber as Tábuas da Lei (cf. Êx 34, 28), como Elias antes de encontrar o Senhor no monte Horeb (cf. 1 Rs 19, 8), assim Jesus rezando e jejuando se preparou para a sua missão, cujo início foi um duro confronto com o tentador.

Podemos perguntar que valor e que sentido tem para nós, cristãos, privar-nos de algo que seria em si bom e útil para o nosso sustento. As Sagradas Escrituras e toda a tradição cristã ensinam que o jejum é de grande ajuda para evitar o pecado e tudo o que a ele induz. Por isto, na história da salvação é frequente o convite a jejuar. Já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura o Senhor comanda que o homem se abstenha de comer o fruto proibido: "Podes comer o fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que o comeres, certamente morrerás" (Gn 2, 16-17). Comentando a ordem divina, São Basílio observa que "o jejum foi ordenado no Paraíso", e "o primeiro mandamento neste sentido foi dado a Adão". Portanto, ele conclui: "O 'não comas' e, portanto, a lei do jejum e da abstinência" (cf. Sermo de jejunio: PG 31, 163, 98). Dado que todos estamos entorpecidos pelo pecado e pelas suas consequências, o jejum nos é oferecido como um meio para restabelecer a amizade com o Senhor. Assim fez Esdras antes da viagem de regresso do exílio à Terra Prometida, convidando o povo reunido a jejuar "para nos humilhar – diz – diante do nosso Deus" (8, 21). O Onipotente ouviu a sua prece e garantiu os seus favores e a sua proteção. O mesmo fizeram os habitantes de Ninive que, sensíveis ao apelo de Jonas ao arrependimento, proclamaram, como testemunho da sua sinceridade, um jejum dizendo: "Quem sabe se Deus não Se arrependerá, e acalmará o ardor da Sua ira, de modo que não pereçamos?" (3, 9). Então Deus viu as suas obras e os poupou.

No Novo Testamento, Jesus ressalta a razão profunda do jejum, condenando a atitude dos fariseus, os quais observaram escrupulosamente as prescrições impostas pela lei, mas o seu coração estava distante de Deus. O verdadeiro jejum, repete o Mestre Divino também em outras partes, é antes cumprir a vontade do Pai celeste, o qual "vê no oculto, te recompensará" (Mt 6, 18). Ele próprio dá o exemplo respondendo a satanás, no final dos 40 dias transcorridos no deserto, que "nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus" (Mt 4, 4). O verdadeiro jejum finaliza-se portanto a comer o "verdadeiro alimento", que é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34). Portanto, se Adão desobedeceu ao mandamento do Senhor "de não comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal", com o jejum o crente deseja submeter-se humildemente a Deus, confiando na sua bondade e misericórdia.

Encontramos a prática do jejum muito presente na primeira comunidade cristã (cf. Act 13, 3; 14, 22; 27, 21; 2 Cor 6, 5). Também os Padres da Igreja falam da força do jejum, capaz de impedir o pecado, de reprimir os desejos do "velho Adão", e de abrir no coração do crente o caminho para Deus. O jejum é também uma prática frequente e recomendada pelos santos de todas as épocas. Escreve São Pedro Crisólogo: "O jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum, portanto quem reza jejue. Quem jejua tenha misericórdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a ele se dirige. Quem quer encontrar aberto em seu benefício o coração de Deus não feche o seu a quem o suplica" (Sermo 43; PL 52, 320.332).

Nos nossos dias, a prática do jejum parece ter perdido um pouco do seu valor espiritual e ter adquirido antes, numa cultura marcada pela busca da satisfação material, o valor de uma medida terapêutica para a cura do próprio corpo. Jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os crentes é em primeiro lugar uma "terapia" para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus. Na Constituição Apostólica Paenitemini de 1966, o servo de Deus Paulo VI reconhecia a necessidade de colocar o jejum no contexto da chamada de cada cristão a "não viver mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou a si por ele, e... também a viver pelos irmãos" (Cf. Cap. I). A Quaresma poderia ser uma ocasião oportuna para retomar as normas contidas na citada Constituição Apostólica, valorizando o significado autêntico e perene desta antiga prática penitencial, que pode ajudar-nos a mortificar o nosso egoísmo e a abrir o coração ao amor de Deus e do próximo, primeiro e máximo mandamento da nova Lei e compêndio de todo o Evangelho (cf. Mt 22, 34-40).

A prática fiel do jejum contribui ainda para conferir unidade à pessoa, corpo e alma, ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor. Santo Agostinho, que conhecia bem as próprias inclinações negativas, as definia como "nó complicado e emaranhado" (Confissões, II, 10.18). Em seu tratado "A utilidade do jejum", escrevia: "Certamente é um suplício que me inflijo, mas para que Ele me perdoe; castigo-me por mim mesmo para que Ele me ajude, para aprazer aos seus olhos, para alcançar o agrado da sua doçura" (Sermo 400, 3, 3: PL 40, 708). Privar-se do sustento material que alimenta o corpo facilita uma ulterior disposição para ouvir Cristo e para se alimentar da sua palavra de salvação. Com o jejum e com a oração permitimos que Ele venha saciar a fome mais profunda que vivemos no nosso íntimo: a fome e a sede de Deus.

Ao mesmo tempo, o jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação na qual vivem tantos irmãos nossos. Na sua Primeira Carta São João admoesta: "Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como estará nele o amor de Deus?" (3, 17). Jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irmão que sofre (cf. Enc. Deus caritas est, 15). Escolhendo livremente privar-nos de algo para ajudar os outros, mostramos concretamente que o próximo em dificuldade não nos é indiferente. Precisamente para manter viva esta atitude de acolhimento e de atenção para com os irmãos, encorajo as paróquias e todas as outras comunidades a intensificar na Quaresma a prática do jejum pessoal e comunitário, cultivando de igual modo a escuta da Palavra de Deus, a oração e a esmola. Foi este, desde o início o estilo da comunidade cristã, na qual eram feitas coletas especiais (cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27), e os irmãos eram convidados a dar aos pobres quanto, graças ao jejum, tinham poupado (cf. Didascalia Ap., V, 20, 18). Também hoje esta prática deve ser redescoberta e encorajada, sobretudo durante o tempo litúrgico quaresmal.

Do que disse, sobressai com grande clareza que o jejum representa uma prática ascética importante, uma arma espiritual para lutar contra qualquer eventual apego desordenado a nós mesmos. Privar-se voluntariamente do prazer dos alimentos e de outros bens materiais, ajuda o discípulo de Cristo a controlar os apetites da natureza fragilizada pela culpa da origem, cujos efeitos negativos atingem toda a personalidade humana. Exorta oportunamente um antigo hino litúrgico quaresmal: "Utamur ergo parcius, / verbis, cibis et potibus, / somno, iocis et arcitius / perstemus in custodia – Usemos de modo mais sóbrio palavras, alimentos, bebidas, sono e jogos, e permaneçamos mais atentamente vigilantes".

Queridos irmãos e irmãos, considerando bem, o jejum tem como sua finalidade última ajudar cada um de nós, como escrevia o Servo de Deus Papa João Paulo II, a fazer dom total de si a Deus (cf. Enc. Veritatis splendor, 21). A Quaresma seja portanto valorizada em cada família e em cada comunidade cristã para afastar tudo o que distrai o espírito e para intensificar o que alimenta a alma abrindo-a ao amor de Deus e do próximo. Penso em particular num maior compromisso na oração, na lectio divina, no recurso ao Sacramento da Reconciliação e na participação ativa na Eucaristia, sobretudo na Santa Missa dominical. Com esta disposição interior entremos no clima penitencial da Quaresma. Acompanhe-nos a Bem-Aventurada Virgem Maria, Causa nostrae laetitiae, e ampare-nos no esforço de libertar o nosso coração da escravidão do pecado para o tornar cada vez mais "tabernáculo vivo de Deus". Com estes votos, ao garantir a minha oração para que cada crente e comunidade eclesial percorra um proveitoso itinerário quaresmal, concedo de coração a todos a Bênção Apostólica.

Vaticano, 11 de Dezembro de 2008.

Benedictus PP. XVI

O TEMPO DA QUARESMA

O que quer dizer Quaresma?
A palavra Quaresma vem do latim quadragésima e é utilizada para designar o período de quarenta dias que antecedem a festa ápice do cristianismo: a ressurreição de Jesus Cristo, comemorada no famoso Domingo de Páscoa. Esta prática data desde o século IV.
Na quaresma, que começa na quarta-feira de cinzas e termina na quinta-feira (até a Missa da Ceia do Senhor, exclusive - Diretório da Liturgia - CNBB) da Semana Santa, os católicos realizam a preparação para a Páscoa. O período é reservado para a reflexão, a conversão espiritual. Ou seja, o católico deve se aproximar de Deus visando o crescimento espiritual. Os fiéis são convidados a fazerem uma comparação entre suas vidas e a mensagem cristã expressa nos Evangelhos. Esta comparação significa um recomeço, um renascimento para as questões espirituais e de crescimento pessoal. O cristão deve intensificar a prática dos princípios essenciais de sua fé com o objetivo de ser uma pessoa melhor e proporcionar o bem para os demais.
Essencialmente, o período é um retiro espiritual voltado à reflexão, onde os cristãos se recolhem em oração e penitência para preparar o espírito para a acolhida do Cristo Vivo, Ressuscitado no Domingo de Páscoa. Assim, retomando questões espirituais, simbolicamente o cristão está renascendo, como Cristo. Todas as religiões têm períodos voltados à reflexão, eles fazem parte da disciplina religiosa. Cada doutrina religiosa tem seu calendário específico para seguir. A cor litúrgica deste tempo é o roxo, que significa luto e penitência.
Cerca de duzentos anos após o nascimento de Cristo, os cristãos começaram a preparar a festa da Páscoa com três dias de oração, meditação e jejum. Por volta do ano 350 d. C., a Igreja aumentou o tempo de preparação para quarenta dias. Assim surgiu a Quaresma.
Qual o significado destes 40 dias?
Na Bíblia, o número quatro simboliza o universo material. Os zeros que o seguem significam o tempo de nossa vida na terra, suas provações e dificuldades. Portanto, a duração da Quaresma está baseada no símbolo deste número na Bíblia. Nela, é relatada as passagens dos quarenta dias do dilúvio, dos quarenta anos de peregrinação do povo judeu pelo deserto, dos quarenta dias de Moisés e de Elias na montanha, dos quarenta dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública, dos 400 anos que durou a estada dos judeus no Egito, entre outras. Esses períodos vêm sempre antes de fatos importantes e se relacionam com a necessidade de ir criando um clima adequado e dirigindo o coração para algo que vai acontecer.
O que os cristãos devem fazer no tempo de Quaresma?
A Igreja católica propõe, por meio do Evangelho proclamado na quarta-feira de cinzas, três grandes linhas de ação: a oração, a penitência e a caridade. Não somente durante a Quaresma, mas em todos os dias de sua vida, o cristão deve buscar o Reino de Deus, ou seja, lutar para que exista justiça, a paz e o amor em toda a humanidade. Os cristãos devem então recolher-se para a reflexão para se aproximar de Deus. Esta busca inclui a oração, a penitência e a caridade, esta última como uma conseqüência da penitência.
Ainda é costume jejuar durante este tempo?
Sim, ainda é costume jejuar na Quaresma, ainda que ele seja válido em qualquer época do ano. A igreja propõe o jejum principalmente como forma de sacrifício, mas também como uma maneira de educar-se, de ir percebendo que, o que o ser humano mais necessita é de Deus. Desta forma se justifica as demais abstinências, elas têm a mesma função.
Oficialmente, o jejum deve ser feito pelos cristãos batizados, na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa. Pela lei da igreja, o jejum é obrigatório nesses dois dias para pessoas entre 18 e 60 anos. Porém, podem ser substituídos por outros dias na medida da necessidade individual de cada fiel, e também praticados por crianças e idosos de acordo com suas disponibilidades.
O jejum, assim como todas as penitências, é visto pela igreja como uma forma de educação no sentido de se privar de algo e reverte-lo em serviços de amor, em práticas de caridade. Os sacrifícios, que podem ser escolhidos livremente, por exemplo: um jovem deixa de mascar chicletes por um mês, e o valor que gastaria nos doces é usado para o bem de alguém necessitado.
O que é a Campanha da Fraternidade?
O percurso da Quaresma é acompanhado pela realização da Campanha da Fraternidade – a maior campanha da solidariedade do mundo cristão. Cada ano é contemplado um tema urgente e necessário.
A Campanha da Fraternidade é uma atividade ampla de evangelização que ajuda os cristãos e as pessoas de boa vontade a concretizarem, na prática, a transformação da sociedade a partir de um problema específico, que exige a participação de todos na sua solução. Ela tornou-se tão especial por provocar a renovação da vida da igreja e ao mesmo tempo resolver problemas reais.
Seus objetivos permanentes são: despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor: exigência central do Evangelho. Renovar a consciência da responsabilidade de todos na promoção humana, em vista de uma sociedade justa e solidária.
Os temas escolhidos são sempre aspectos da realidade sócio-econômico-política do país, marcada pela injustiça, pela exclusão, por índices sempre mais altos de miséria. Os problemas que a Campanha visa ajudar a resolver, se encontram com a fraternidade ferida, e a fé, tem o compromisso de restabelecê-la. A partir do início dos encontros nacionais sobre a CF, em 1971, a escolha de seus temas vem tendo sempre mais ampla participação dos 16 Regionais da CNBB que recolhem sugestões das Dioceses e estas das paróquias e comunidades.
Como começou a Campanha da Fraternidade?
Em 1961, três padres responsáveis pela Cáritas Brasileira idealizaram uma campanha para arrecadar fundos para as atividades assistenciais e promocionais da instituição e torná-la autônoma financeiramente. A atividade foi chamada Campanha da Fraternidade e realizada pela primeira vez na quaresma de 1962, em Natal-RN, com adesão de outras três Dioceses e apoio financeiro dos Bispos norte-americanos. No ano seguinte, 16 Dioceses do Nordeste realizaram a campanha. Não teve êxito financeiro, mas foi o embrião de um projeto anual dos Organismos Nacionais da CNBB e das Igrejas Particulares no Brasil, realizado à luz e na perspectiva das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral (Evangelizadora) da Igreja em nosso País.
Este projeto se tornou nacional no dia 26 de dezembro de 1963, com uma resolução do Concílio Vaticano II, a maior e mais importante reunião da igreja católica. O projeto realizou-se pela primeira vez na quaresma de 1964. Ao longo de quatro anos seguidos, por um período extenso em cada um, os Bispos ficaram hospedados na mesma casa, em Roma, participando das sessões do Concílio e de diversos momentos de reunião, estudo, troca de experiências. Nesse contexto, nasceu e cresceu a Campanha da Fraternidade.
Qual é a relação entre Campanha da Fraternidade e a Quaresma?
A Campanha da Fraternidade é um instrumento para desenvolver o espírito quaresmal de conversão e renovação interior a partir da realização da ação comunitária, que para os católicos, é a verdadeira penitência que Deus quer em preparação da Páscoa. Ela ajuda na tarefa de colocar em prática a caridade e ajuda ao próximo. É um modo criativo de concretizar o exercício pastoral de conjunto, visando a transformação das injustiças sociais.
Desta forma, a Campanha da Fraternidade é maneira que a Igreja no Brasil celebra a quaresma em preparação à Páscoa. Ela dá ao tempo quaresmal uma dimensão histórica, humana, encarnada e principalmente comprometida com as questões específicas de nosso povo, como atividade essencial ligada à Páscoa do Senhor.
Quais são os rituais e tradições associados com este tempo?
As celebrações têm início no Domingo de Ramos, ele significa a entrada triunfal de Jesus, o começo da Semana Santa. Os ramos simbolizam a vida do Senhor, ou seja, Domingo de Ramos é entrar na Semana Santa para relembrar aquele momento.
Depois, celebra-se a Ceia do Senhor, realizada na quinta-feira santa, conhecida também como o lava pés. Ela celebra Jesus criando a eucaristia, a entrega de Jesus e portanto, o resgate dos pecadores.
Depois, vem a celebração da Sexta-feira da Paixão, também conhecida como sexta-feira santa, que celebra a morte do Senhor, às 15 horas. Na sexta à noite geralmente é feita uma procissão ou ainda a Via Sacra, que seria a repetição das 14 passagens da vida de Jesus.
No sábado à noite, o Sábado de Aleluia, é celebrada a Vigília Pascal, também conhecida como a Missa do Fogo. Nela o Círio Pascal é acesso, resultando as cinzas. O significado das cinzas é que do pó viemos e para o pó voltaremos, sinal de conversão e de que nada somos sem Deus. Um símbolo da renovação de um ciclo. Os rituais se encerram no domingo, data da ressurreição de Cristo, com a Missa da Páscoa, que celebra o Cristo vivo.

Fonte: CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
Arquidiocese de São Paulo - Vicariato da Comunicação

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA -

Pe. Fernando Bastos de Ávila, S.J.

Proponho-me, nesta comunicação, percorrer "à vol d’oseau" e evolução do pensamento social da Igreja de Leão XIII a João Paulo II, apenas para poder elencar os grandes princípios que, graças à tradição social da Igreja, à experiência histórica da Igreja "perita em humanidade" (Paulo VI), foram constituindo as bases de uma convivência humana digna. Dispenso-me de remeter cada princípio às fontes oficiais, para não onerar o texto de citações que procurei explicitar no trabalho "Pequena Enciclopédia de Doutrina Social da Igreja". A referência a esses grandes princípios permitirá ver com clareza a originalidade específica da Doutrina Social da Igreja.
I- A EVOLUÇÃO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA
A "Rerum Novarum", encíclica "sobre a condição dos operários" defendeu o dever do Estado em garantir os direitos dos operários, entre os quais sublinha a importância do seu direito de criar sindicatos para reivindicar a realização de seus legítimos interesses. Leão XIII não só rejeita o socialismo e responsabiliza o capitalismo pela questão social, mas propõe uma verdadeira política social que inspirou toda política social e trabalhista contemporânea .
Pio XI comemorando os 40 anos da "Rerum Novarum", promulga sua encíclica, "Quadragésimo Ano", no dia 15 de maio de 1931. É a segunda grande encíclica social, que procura resgatar o legado de Leão XIII no novo contexto histórico que se afigurava ameaçador. Decepcionado com as democracias liberais, Pio XI estava convicto que o destino da humanidade seria decidido no confronto dos grandes blocos totalitários emergentes: o nazi-facismo, de um lado e o comunismo marxista de outro. Teve a audácia não só de condenar estes sistemas (v. encíclicas: "Non abbiamo bisogno", 1931; "Mit brennender Sorge", 1937, "Divini Redemptoris", 1937), mas também de propor um sistema alternativo, o corporativismo cristão fundado na preocupação de preservar a dignidade inalienável da pessoa humana esmagada pelos regimes tota1itários e a primazia do bem comum sobre os interesses tanto corporativos como classistas. A tragédia da Segunda Guerra Mundial não permitiu que a proposta de Pio XI tivesse a merecida ressonância.
Sabe-se que o Pio XII desejava comemorar com uma encíclica o 50º aniversário da "Rerum Novarum" em 1941. O mundo porém, vivia os horrores da guerra. Não havia ambiente para uma celebração festiva. O Papa dedicou entretanto sua radiomensagem de 1º de junho daquele ano para comemorar o cinqüentenário da encíclica de Leão XIII, focalizando o tema do destino universal dos bens: inspirado nele, focaliza os grandes princípios da doutrina social da Igreja que deverão mobilizar os católicos no esforço de reconstrução de uma nova ordem social a ser empreendida depois da tormenta da guerra.
Em 1961, João XXIII publica também no dia 15 de maio, sua encíclica social "Mater et Magistra" em homenagem ao 70º aniversário da "Rerum Novarum". É a mais longa encíclica social e nela, o Papa examina as novas dimensões que assumira a questão social desde Leão XIII. Considerando os sinais dos tempos, intui que a questão social não reduzia só a disputa das classes pela apropriação dos meios de produção, mas assumira já dimensões planetárias: era a disputa dos recursos do planeta entre os povos desenvolvidos e a imensa multidão dos que viviam ou sobreviviam nas condições de subdesenvolvimento. Detecta os caminhos de um crescente processo de socialização destinado a permitir ao maior número, inclusive aos homens do campo, o acesso a níveis de vida compatíveis com sua dignidade de filhos de Deus.
João XXIII abria caminho para a mensagem social de Paulo VI que em sua encíclica, "Populorum Progressio", de 26 de março de 1967, incorpora definitivamente a temática do desenvolvimento na reflexão social da Igreja. Paulo VI via com angústia a distância crescente entre os povos desenvolvidos e subdesenvolvidos. Era impossível consolidar a paz, o grande anseio da humanidade, tema da última encíclica, "Pacem in Terris", de João XXIII, no contexto de um mundo dividido por imensas desigualdades: "O desenvolvimento é o novo nome da paz". O Papa entretanto não reduzia o desenvolvimento ao mero crescimento econômico. Ele sabia da impostura dos grandes sistemas, capitalismo e comunismo, que propunham como solução de todos os problemas a satisfação indefinida de um desejo insaciável de consumo. Para ele, o mais importante não é ter mais; o ter mais só se justifica na medida em que permite ser mais. Sua mensagem é o desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens. Daí o seu apelo à solidariedade internacional. Renova seu apelo em Carta Apostólica ao Cardeal Secretário de Estado, em 1971, a "Octogésima Adveniens", comemorando o 80º aniversário da "Rerum Novarum", na qual deixa claro que a Igreja renuncia a qualquer pretensão de propor um sistema alternativo. É missão dos leigos comprometidos na política construir os modelos adequados às diversidades nacionais.
João Paulo II pretendia celebrar o 90º aniversário da mesma encíclica, no dia 15 de maio de 1981. O atentado de que foi vítima a 13 de maio adiou a publicação de sua encíclica. Ele já redigira entretanto um discurso aos operários, que o Cardeal Agostino Casaroli, Secretário de Estado, leu na Praça São Pedro no mesmo dia, 15 de maio. A encíclica "Laborem Exercens" aparece a 14 de setembro do mesmo ano. Nela, João Paulo II inova profundamente a abordagem do problema social, quando diz: "o trabalho é uma chave e provavelmente a chave essencial de toda a questão social" ("Laborem Exercens", nº 3). Na realidade, ate então, toda a questão social era centrada no problema da propriedade. João Paulo II não hesita em afirmar que "a propriedade dos meios de produção - tanto a propriedade privada como a pública ou coletiva – só é legítima na medida em que serve ao trabalho" ("Laborem Exercens", nº 14). Na sua segunda encíclica social, "Sollicitudo Rei Socialis", de 30 de dezembro de 1987, o Papa comemora o 20º aniversário da "Populorum Progressio" em que voltava a insistir na tese de que só a solidariedade internacional pode promover o desenvolvimento integral.
A "Centesimus Annus" promulgada a 1º de maio, na festa de São José Operário, propõe-se fazer uma "releitura" (nº 3), da primeira encíclica social: a "Rerum Novarum", de Leão XIII, cujo Centenário a Igreja já está comemorando no mundo inteiro.
Essa releitura nos convida a um tríplice olhar; "olhar para traz", para o contexto do fim do século passado em que emerge a "Rerum Novarum" e para os princípios fundamentais que ela formulou: "olhar ao redor" para as novas "coisas novas" deste nosso fim de século: "olhar ao futuro", para o advento do terceiro milênio "carregado de incógnitas e de promessas" (nº 3).
II- OS GRANDES PRINCÍPIOS
1- A dignidade inalienável da pessoa humana, à luz da fé: criada por Deus, remida por Cristo, santificada e vocacionada pelo Espírito Santo. Dignidade que exclui qualquer discriminação racial, social, econômica, religiosa ou cultural. "O homem é o caminho da Igreja", é a síntese mais densa do compromisso da Igreja com o homem, tema que encerra a encíclica "Centesimus Annus". É o princípio que marca a distância entre a Doutrina Social da Igreja e todos os sistemas e ideologias de inspiração totalitária de direita ou de esquerda, para as quais a pessoa só recebe sentido do coletivo social do qual ela é apenas uma parte descartável.
2 — A primazia do bem comum. O princípio se bifurca em dois planos: o nacional e o mundial.
O bem comum nacional é a responsabilidade e a própria razão de ser o Estado que pode tudo aquilo e só aquilo que promove o bem comum, ou seja, o bem de todos, sem discriminações. Ele é precisamente o conjunto das condições concretas que permitam a todos atingir níveis de vida compatíveis com sua dignidade. A primazia do bem comum e a consagração da democracia como único regime político que preserva a dignidade da pessoa humana.
O bem comum em sua dimensão mundial é o bem da comunidade das nações ("Centesimus Annus" nº 52) confiado a uma autoridade supranacional e cujos sujeitos são precisamente os diversos países do mundo. Sua concretização e as condições de sua eficácia são ainda apenas esboçadas, nas grandes organizações supranacionais, sob a tutela da ONU, mas parece constituir o desfecho de uma evolução milenar, inscrita na própria natureza social do homem. O bem comum universal será o grande desafio do próximo milênio, para recuperar a implosão do 2º mundo e a marginalização do 3º mundo - ("Centesimus Annus").
3- A primazia da destinação universal dos bens sobre a apropriação individual. Os bens criados se destinam a todos os homens. A apropriação individual, o chamado direito de propriedade, é uma forma eficaz de realizar melhor esta destinação. A propriedade, situada assim à luz deste princípio, é entendida como responsabilidade social e não como privilégio excludente: "Sobre toda a propriedade privada pesa uma hipoteca social" - ("Laborem Exercens").
4 — A primazia do trabalho sobre o capital. O capital como forma de apropriação coletiva, pública ou privada, "só é legítimo na medida era que serve ao trabalho" (L.E.). O capital é o fruto do trabalho e a ele se destina. É o princípio que marca a incompatibilidade da Doutrina Social da Igreja com o capitalismo liberal. É importante relembrar o caráter fundamental desse princípio, num momento histórico no qual, com a implosão do socialismo real, um neoliberalismo, já denunciado por João Paulo II, na "Centesimus Annus", se apresenta com a pretensão de ser a única opção, para uma humanidade sem alternativas.
5- O princípio da subsidiariedade. Segundo ele, as instâncias superiores de poder não se devem atribuir o desempenho daquilo que as instâncias inferiores podem melhor realizar. O dever das instâncias superiores é um dever supletivo, de coordenação e promoção da iniciativa e da criatividade das instâncias inferiores. É este princípio a fonte da vitalidade de um número imenso de instituições, movimentos e iniciativas que são a expressão da maturidade democrática liberta do paternalismo estatal. É também o princípio que oferece os critérios para discernir, na variedade das conjunturas, a solução de problemas tais como centralização e descentralização, naciona1ização e privatização.
6 — O princípio da solidariedade. É o princípio segundo o qual cada um cresce em valor e dignidade na medida em que investe suas capacidades e seu dinamismo na promoção do outro. O princípio vale analogicamente para todas as relações concretas: entre o homem e a mulher, os pais e os filhos, os grupos sociais, os níveis e setores de poder, o capital e o trabalho, o mundo desenvolvido e subdesenvolvido. Hoje se pode falar numa descoberta sempre mais lúcida de uma relação de solidariedade entre o homem e a natureza: o homem mais se valoriza na medida em que preserva e promove a natureza e esta, protegida e preservada, garante melhor qualidade de vida para o homem.
III- A ORIGINALIDADE
Onde reside a originalidade de uma doutrina fundada sobre esses seis pilares? Em dois aspectos que considero essenciais.
Primeiro: Toda a história humana foi a história de uma incansável busca de liberdade e de justiça.
O homem quis ser mais livre das contingências naturais e das violências que o oprimiam. Mas a humanidade fez a trágica experiência de que a conquista da liberdade criou condições para a imposição de uma imensa iniqüidade social. Refiro-me as conseqüências da revolução francesa, da revo1ução industrial e à questão social delas resultante.
A frustração gerada por essa questão social alimentou uma ânsia de justiça expressa em condições de igualdade, que resultou numa imensa opressão da liberdade, especialmente da liberdade religiosa. Refiro-me à revo1ução soviética, ao comunismo internacional, cuja implosão no Leste-europeu assistimos.
A ânsia da liberdade foi pretexto para a injustiça; a busca da justiça foi realizada pelo sacrifício da liberdade.
O primeiro aspecto da originalidade da Doutrina Social da igreja é precisamente este: ela defende o atendimento às radicais exigências da justiça, precisamente através do exercício responsável da liberdade, ela defende a liberdade para atender às exigências da justiça.
Entretanto, o desejo de liberdade e de justiça não é obviamente característica exclusiva da Doutrina Social da Igreja. Muitas outras doutrinas as promovem. Aqui vem assim o segundo aspecto da originalidade da D.S.I.. Fora da Igreja a busca da liberdade com justiça passava pelo ódio. Só a Igreja percebe com toda a clareza que a definitiva conciliação entre as exigências da liberdade e da justiça é uma civilização do amor.
João Paulo II em suas três encíclicas sociais vem marcando a incompatibilidade da Doutrina Social da Igreja tanto com o liberalismo capitalista quanto com o coletivismo marxista. O primeiro, exaltando a liberdade, leva a humanidade a uma exacerbação do consumismo hedonista. O segundo sob a falsa pretensão de resgatar a justiça é responsável pela opressão dos direitos de uma autêntica liberdade. Recupera assim a grande tradição social da Igreja, inaugurada oficialmente por Leão XIII, na encíclica "Rerum Novarum", de 1891.
CONCLUSÃO
Essa doutrina, mesmo incompreendida por muitos, dentro e fora da Igreja, vem se confirmando como a grande mensagem capaz de abrir o caminho para o novo milênio e para uma nova civilização. Depois de tantas injustiças, tantos ódios, tantos sofrimentos, tantas guerras, torna-se cada vez mais claro que só o amor e a solidariedade poderão conciliar os grandes anseios da humanidade: atender as exigências da justiça através do exercício responsável da liberdade. Uma civi1ização do amor e da solidariedade é a proposta da Doutrina Social da Igreja de Leão XIII e João Paulo II. A humanidade já está madura para perceber que a proposta é irrecusável.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
Pequena Enciclopédia de Doutrina Social da Igreja.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

OS SETE CONCÍLIOS ECUMÉNICOS

BIZÂNCIO, A IGREJA DOS SETE CONCÍLIOS

A Igreja dos Sete Concílios "Tudo professa que existem sete Concílios Ecuménicos e santos, e estes são os sete pilares da fé do Verbo Divino nos quais Ele erigiu sua santa morada, a Igreja Ecuménica e Católica" (João II, Metropolita da Rússia, 1800-1889).
Constantino coloca-se como um divisor na história da Igreja. Com sua conversão, o tempo dos martírios e das perseguições chegou ao fim, e a Igreja das Catacumbas tornou-se a Igreja do Império. O primeiro grande efeito da visão de Constantino foi o assim chamado "Edito" de Milão, que ele e seu companheiro Imperador Licínio editaram em 313, proclamando a tolerância oficial à fé cristã. E, embora, a princípio, Constantino garantisse não mais do que a tolerância, ele em breve deixou claro que tinha a intenção de favorecer o cristianismo sobre todas as outras religiões toleradas no Império Romano.
Teodósio, no prazo de cinquenta anos após a morte de Constantino, havia levado a cabo a sua política: na sua legislação ele tornou o cristianismo não apenas a mais favorecida, mas a única religião reconhecida do Império. A Igreja agora estava estabelecida. "Vocês não estão autorizados a existir”, as autoridades romanas disseram uma vez aos cristãos. Agora era a vez do paganismo ser suprimido.
A visão da cruz que teve Constantino, levou-o também durante a sua existência, a tomar duas outras atitudes, igualmente oportunas para o posterior desenvolvimento do cristianismo. Primeiro, em 324 ele decidiu mudar a capital do Império Romano em direcção ao Oriente, da Itália para as margens do Bósforo. Ali, no local da cidade grega de Bizâncio, ele construiu uma nova capital, a qual chamou "Constantinoupolis”, de seu nome. Os motivos dessa mudança foram em parte económicos e políticos, mas foram também religiosos; a velha Roma estava muito impregnada com associações pagãs para ser o centro do Império Cristão que ele imaginava. Na Nova Roma, as coisas seriam diferentes após a solene inauguração da cidade em 330, ele decretou que em Constantinopla jamais seriam realizados ritos pagãos. A nova capital de Constantino exerceu uma influência decisiva no desenvolvimento da história da Ortodoxia.
Em seguida Constantino reuniu o primeiro Concílio Geral ou Ecuménico da Igreja de Cristo em Nicéia em 325. Se era para o Império Romano ser um Império Cristão, Constantino desejava vê-lo firmemente estruturado na Fé Ortodoxa. Este era o dever do Concílio de Nicéia, elaborar a essência de tal Fé. Nada poderia ter simbolizado mais claramente a nova relação entre a Igreja e o Estado do que as aparentes circunstâncias dessa reunião em Nicéia. O próprio Imperador presidiu, "como um mensageiro celeste de Deus”, como um dos presentes, Eusébio, Bispo de Cesaréia, o definiu. Ao término do Concílio os bispos jantaram com o Imperador. "As circunstâncias do banquete”, escreveu Eusébio (que tinha a tendência de se impressionar com tais coisas) "foram esplêndidas além de qualquer descrição. Guarnições da guarda pessoal e outras tropas rodeavam a entrada do palácio com as espadas desembainhadas e pelo meio destes, os homens de Deus entravam sem medo para os aposentos imperiais. Alguns faziam companhia ao Imperador à mesa, outros se reclinavam em divãs enfileirados em ambos os lados. Podia-se pensar tratar-se de uma pintura do reino de Cristo e de sonho em vez de realidade. As coisas certamente haviam mudado desde o tempo em que Nero usou cristãos como tochas vivas para iluminar seus jardins à noite. Nicéia foi o primeiro de sete Concílios Gerais; e este, assim como a cidade de Constantino, ocupa uma posição central na história da Ortodoxia”.
Os três acontecimentos - o Edito de Milão, a fundação de Constantinopla e o Concílio de Nicéia - marcam a maioridade da Igreja.

OS PRIMEIROS SEIS CONCÍLIOS ECUMÉNICOS - (325-681)

A vida da Igreja no período inicial bizantino é dominada pelos Sete Concílios Gerais. Estes Concílios preencheram uma tarefa dupla. Primeiro, eles esclareceram e articularam a organização visível da Igreja, tornando clara a posição das cinco grandes Sedes ou Patriarcados, como vieram a ser conhecidos. Segundo o mais importante, os Concílios definiram de uma vez por todas os ensinamentos da Igreja sobre as doutrinas fundamentais da Fé Cristã - a Trindade e a Encarnação. Todos os cristãos concordam em encarar tais coisas como "mistérios" os quais se encontram além da linguagem e compreensão humanas. Os bispos, quando redigiam definições nos Concílios, não intencionavam explicar o mistério, apenas procuravam eliminar certas maneiras erradas de falar e raciocinar sobre ele. Para impedir que os homens se desviassem em erro ou heresia, eles tão-somente esclareciam o modo correcto de se referir ao mistério.
As discussões nos Concílios às vezes parecem abstractas e remotas, embora tenham uma finalidade prática: a salvação do homem. O homem, como ensina o Novo Testamento, é separado de Deus pelo pecado, e não pode por seus próprios meios romper a barreira que o pecado criou. Deus, portanto tomou a iniciativa: tornou-se homem, foi crucificado, e ressuscitou, libertando desta forma a humanidade da prisão do pecado e da morte. Esta é a mensagem central da Fé cristã e é a mensagem de redenção que os Concílios estavam preocupados em salvaguardar. As heresias eram perigosas e exigiam condenação, pois prejudicavam o ensinamento do Novo Testamento, criando uma barreira entre o homem e Deus, tornando assim impossível para o homem atingir a salvação total.
São Paulo exprimiu essa mensagem de redenção em termos de participação. Cristo participou de nossa pobreza para que pudéssemos participar das riquezas de sua divindade: "Pois conheceis a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre pelo amor de vós, para que pela sua pobreza vos tornásseis ricos" (2 Coríntios 8, 9). No Evangelho de São João é encontrada a mesma ideia de modo ligeiramente diferente.
Cristo declara que ele deu a seus discípulos uma participação na divina glória e ele ora para que possam alcançar a união com Deus: "Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado para que sejam um como nós o somos; eu neles e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste, e os amaste como também amaste a mim" (João 17, 22-23). Os Padres Gregos tomaram este e outros textos similares em seu sentido literal e ousaram falar da "deificação" do homem (do grego theosis). Se é para o homem participar da glória de Deus, eles dizem, se é para que sejam "aperfeiçoados na unidade" com Deus, isto significa de fato que o homem precisa ser "deificado". Ele é chamado para tornar-se, pela graça, o que Deus é por natureza. A este respeito, Santo Atanásio resumiu a finalidade da Encarnação com o seguinte: "Deus tornou-se homem para que possamos nos tornar Deus”. Assim, se este "tornar-se Deus, esta theosis, é possível, Cristo o Salvador deve ser ambos, completamente homem e completamente Deus. Ninguém a não ser Deus pode salvar o homem. Portanto, se Cristo é quem salva, ele deve ser Deus. Mas apenas se ele for verdadeiramente homem, como somos, podemos nós homens participar naquilo que ele fez por nós. É firmada uma ponte entre Deus e o homem pelo Cristo Encarnado, homem-Deus. "E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem" (João 1, 51). Não apenas os Anjos usam aquela escada mas toda a raça humana.
Cristo deve ser completamente Deus e completamente homem. Cada heresia, a seu tempo, nega alguma parte desta afirmação vital. Ou Cristo foi criado menos do que Deus (arianismo); ou sua humanidade era tão afastada de sua divindade que ele tornou-se duas pessoas em vez de uma (nestorianismo), ou ele não era apresentado como verdadeiramente homem (monofisismo, monotelismo). Cada Concílio defendia esta afirmação. Os dois primeiros, ocorridos no século IV, concentraram-se na primeira parte (de que Cristo deve ser completamente Deus) e formularam a doutrina da Santíssima Trindade. Os quatro seguintes nos séculos V, VI e VII, concentraram-se na segunda parte (a plenitude da humanidade de Cristo) e também procuraram explicar como humanidade e divindade podiam ser unidas numa única pessoa. O sétimo Concílio, em defesa dos Santos Ícones, parece, à primeira vista, afastado da questão; mas, como os primeiros seis, estava basicamente relacionado com a Encarnação e a salvação do homem.

NICÉIA: I CONCÍLIO ECUMÉNICO

A principal realização do Concílio de Nicéia em 325 foi a condenação do arianismo. Arius, um padre de Alexandria, sustentava que o Filho era inferior ao Pai e, ao traçar uma linha divisória entre Deus e a criação, ele colocou o Filho entre as coisas criadas: uma criatura superior, é verdade, mas uma criatura. Sua intenção, sem dúvida, era proteger a unidade e transcendência de Deus, mas o efeito de seus ensinamentos, fazendo Cristo menos do que Deus, tornava a deificação do homem impossível. Apenas se Cristo for verdadeiramente Deus, o Concílio respondeu, poderá nos unir a Deus, pois ninguém além de Deus poderá abrir para o homem o caminho da união. Cristo é "um em essência" (homoousios) com o Pai. Ele não é um semideus ou uma criatura superior, mas Deus da mesma forma que o Pai é Deus: "Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”, o Concílio proclamou no Credo que redigiu, "gerado não criado, consubstancial ao Pai." O Concílio de Nicéia tratou também da organização visível da Igreja. Fazendo referência aos três grandes centros: Roma, Alexandria e Antioquia (Cánone VI). Ele também dispôs que à Sé de Jerusalém, mesmo permanecendo sujeita ao Metropolita de Cesareia, deveria ser dado o próximo lugar de honra após essas três (Cánone VII).
Constantinopla obviamente não foi mencionada, uma vez que ainda não havia sido oficialmente inaugurada como capital, o que somente aconteceu cinco anos depois; ela continuava sujeita como antes, ao Metropolita de Heraclea.

I CONSTANTIPOLITANO: II CONCÍLIO ECUMÉNICO

O trabalho de Nicéia foi retomado pelo segundo Concílio Ecuménico, realizado em Constantinopla em 381. Este Concílio aumentou e adaptou o Credo de Nicéia, desenvolvendo em particular os ensinamentos a respeito do Espírito Santo, de quem afirmava ser Deus da mesma forma que o Pai e o Filho o são: "que procede do Pai e com o Pai e o Filho recebe a mesma adoração e a mesma glória”. O Concílio alterou também o conteúdo do sexto Cánone de Nicéia. A posição de Constantinopla, agora capital do Império, não podia mais ser ignorada, e foi-lhe designado o segundo lugar, após Roma e antes de Alexandria. "O Bispo de Constantinopla deve ter prerrogativas de honra após o Bispo de Roma, pois Constantinopla é a nova Roma" (Cánone III). Por trás das definições do Concílio existia o trabalho de teólogos que davam precisão às formulações que o Concílio empregava. Era a suprema realização de Santo Atanásio de Alexandria, extrair todas as implicações das palavras-chaves no Credo de Nicéia; homoousios, um na essência ou substância, consubstancial.
Complementando seu trabalho havia o dos três Padres Capadócios, São Gregório de Nazianzo, conhecido na Igreja Ortodoxa como Gregório, o Teólogo (329-390), São Basílio, o Grande (330-379) e seu irmão caçula São Gregório de Nissa (morto em 394). Enquanto Atanásio enfatizava a unidade de Deus - Pai e Filho são um em essência (ousia) - os capadócios enfatizavam a trindade divina - Pai, Filho e Espírito Santo são três pessoas (hypostaseis). Preservando um equilíbrio delicado entre a trindade e a unidade em Deus, eles deram significado total ao clássico sumário da doutrina Trinitária, três pessoas em uma essência. Nunca até então a Igreja havia possuído quatro teólogos de tal envergadura em uma única geração.

ÉFESO: III CONCÍLIO ECUMÉNICO

Após 381 o arianismo deixou rapidamente de ser uma questão empolgante, excepto em certas partes da Europa Oriental. O aspecto polémico do trabalho do Concílio está no seu terceiro Cánone, do qual se ressentiram igualmente Roma e Alexandria. A Velha Roma se questionava aonde as pretensões da Nova Roma terminariam. Não poderia Constantinopla vir a reivindicar o primeiro lugar? Roma decidiu ignorar o Cánone ofensivo e somente no Concílio de Latrão (1215) o Papa reconheceu formalmente a reivindicação de Constantinopla de segundo lugar. (Constantinopla encontrava-se naquela época nas mãos dos Cruzados e sob a legislação de um Patriarca latino). Mas o Cánone era igualmente um desafio para Alexandria, que até então havia ocupado o primeiro lugar no Oriente. Os setenta anos seguintes testemunharam um agudo conflito entre Constantinopla e Alexandria e, por um tempo, a vitória foi para a última. O primeiro grande sucesso de Alexandria foi no Sínodo de Oak, quando Teófilo de Alexandria garantiu a deposição e o exílio do Bispo de Constantinopla, São João Crisóstomo, "João Boca de Ouro" (344-407). Um pregador fluente e eloquente - seus sermões duravam frequentemente uma hora ou mais.
João expressava de forma popular as ideias teológicas, formuladas por Atanásio e pelos Capadócios. Um homem de vida austera e meticulosa, inspirado por uma profunda, compaixão pelos pobres e por um ardoroso zelo por justiça social. De todos os Padres ele talvez seja o mais amado da Igreja Ortodoxa, e o que tem seus trabalhos mais lidos.
O segundo grande sucesso de Alexandria foi conseguido pelo sobrinho e sucessor de Teófilo, São Cirilo de Alexandria (morto em 444), que provocou a queda de outro Bispo de Constantinopla, Nestório, no Terceiro Concílio Ecuménico realizado em Efeso (431). Mas em Éfeso havia mais em jogo do que a rivalidade de duas Sés. Assuntos doutrinais, adormecidos desde 381 despertaram de novo, centralizados agora não mais na Trindade, mas na Pessoa do Cristo. Cirilo e Nestório concordavam que Cristo era completamente Deus, um da Trindade, mas divergiam em suas descrições ‘de sua humanidade e em seus métodos de explicar' a união de Deus e homem numa única pessoa.
Eles representavam diferentes tradições ou escolas de teologia. Nestório cresceu na escola de Antioquia, mantida a integridade da humanidade de Cristo, mas distinguia tão enfaticamente a humanidade e a divindade que parecia correr o risco de terminar, não com uma pessoa, mas com duas coexistindo no mesmo corpo. Cirilo, o protagonista da tradição oposta de Alexandria, partia da unidade da pessoa do Cristo, antes que da diversidade de sua humanidade e de sua divindade, mas falava da humanidade de Cristo com menos empolgação que o antioquino. Qualquer uma das teses, se pressionada com força, poderia tornar-se herética, e a Igreja necessitava de ambas para formar uma imagem equilibrada de todo o Cristo. Foi uma tragédia para o cristianismo que as duas escolas, em vez de se equilibrarem mutuamente, entraram em conflito.
Nestório precipitou a controvérsia se recusando chamar a Virgem Maria "Mãe de Deus" (Theotokos). Este título já era aceite na devoção popular, mas parecia a Nestório implicar uma confusão na humanidade de Cristo e sua divindade. Maria, ele questionava, e aqui fica evidente seu "separatismo" antioquino - somente deve ser chamada "Mãe do Homem" ou no máximo "Mãe do Cristo”, uma vez que ela é mãe apenas da humanidade de Cristo, não de sua divindade. Cirilo, apoiado pelo Concílio respondeu com o texto "E o Verbo se fez carne" (S. João l, 4): Maria é a mãe de Deus, pois "ela deu à luz o Verbo de Deus feito carne". A quem Maria deu à luz não era um homem vagamente unido a Deus, mas uma única e íntegra pessoa, que é Deus e homem ao mesmo tempo. O nome Theotokos salvaguarda da unidade da pessoa do Cristo: negar-lhe tal título significa separar o Cristo Encarnado em dois, rompendo a ponte entre Deus e o homem e erigindo na pessoa do Cristo um muro de separação. Assim podemos ver que não apenas títulos de devoção estavam envolvidos em Efeso, mas a própria mensagem de salvação. A mesma primazia que a palavra homoousios ocupa na doutrina da Trindade, a palavra Theotokos tem na doutrina da Encarnação.
Alexandria teve outra vitória no segundo Concílio realizado em Efeso em 449, contudo essa reunião, ao contrário de sua predecessora de 431, não foi aceite pela totalidade da Igreja. Sentiu-se que o partido de Alexandria havia ido dessa vez longe demais. Dióscoro e Eutiques, levando a extremos os ensinamentos de Cirilo, sustentavam que em Cristo havia não apenas uma unidade de pessoas, mas uma única natureza - Monofisismo. Parecia a seus oponentes - embora os monofisitas negassem que se tratava de mera interpretação de seus pontos de vista - que tal modo de falar punha em perigo a totalidade da humanidade de Cristo, a qual no monofisismo, tornou-se tão amalgamada com sua divindade que poderia ser engolida como uma gota no oceano.

CALCEDÔNIA: IV CONCÍLIO ECUMÉNICO

Apenas dois anos mais tarde, o Imperador convocou na Calcedónia uma nova reunião de bispos, que a Igreja de Bizâncio e o ocidente consideram como o quarto Concílio Geral. O pêndulo agora voltou em direcção aos antioquinos. O Concílio reagiu tenazmente contra a terminologia monofisita e afirmou que embora Cristo seja uma pessoa, existe nele, não uma, mas duas naturezas. Os bispos aclamaram o Livro de São Leão o Grande, Papa de Roma (morto em 461), no qual as duas naturezas estão claramente distinguidas. Em sua proclamação de Fé eles afirmavam sua crença em "um e verdadeiro Filho, perfeito na divindade e perfeito na humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem..., reconhecido em duas naturezas inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis; a diferença entre as naturezas não é de forma alguma removida por causa da união, ao contrário a propriedade peculiar de cada natureza é preservada e ambas combinam em uma pessoa e em uma hipostase”. A Definição de Calcedónia, pode-se notar, não é dirigida apenas aos monofisitas ("em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis), mas também aos seguidores de Nestório ("um e verdadeiro Filho... indivisível, inseparável). Mas Calcedónia foi mais do que uma derrota para a teologia de Alexandria: foi uma derrota para os apelos de Alexandria de governadora suprema no Oriente. O Cánone XXVIII de Calcedónia confirmou o Cánone III de Constantinopla, assegurando à Nova Roma o próximo lugar em honra logo após a velha Roma. Leão repudiou este cánone, mas o Oriente, desde então, reconheceu sua validade.
O Concílio também emancipou Jerusalém da jurisdição de Cesareia e lhe deu o quinto lugar entre as grandes Sedes. O sistema mais tarde conhecido entre os ortodoxos como Pentarquia agora estava completo, por meio do qual cinco grandes Sedes da Igreja eram mantidas em honra especial e uma dada ordem de precedência foi estabelecida entre elas: em ordem decrescente: Roma; Constantinopla; Alexandria; Antioquia; Jerusalém.
Todas as cinco reivindicavam fundação apostólica. As quatro primeiras eram as mais importantes cidades do Império Romano; a quinta foi anexada por tratar-se do lugar onde Cristo sofreu na cruz e ressuscitou dos mortos. O bispo de cada uma dessas cidades recebia o título de Patriarca. Os cinco patriarcados dividiam entre eles em esferas de jurisdição todo o mundo conhecido, com excepção de Chipre, a quem foi garantido independência pelo Concílio de Éfeso e permaneceu independente desde então.
Quando se fala da concepção ortodoxa de Pentarquia existem dois prováveis mal entendidos que devem ser evitados. Primeiro, o sistema de Patriarcas e Metropolitas é um assunto relativo à organização eclesiástica. Contudo, se olharmos a Igreja do ponto de vista não de ordem eclesiástica, mas de direito divino, então temos que dizer que todos os bispos são essencialmente iguais, por mais humilde ou nobre que seja a cidade que ele preside. Todos os bispos participam igualmente na sucessão apostólica, todos têm os mesmos poderes sacramentais e todos são divinamente indicados mestres da fé. Se surge uma disputa sobre doutrina, não é suficiente aos Patriarcas expressar sua opinião: todos os bispos das dioceses tem o direito de assistir ao Concílio Ecuménico, de falar e de votar. O sistema da Pentarquia não reduz a igualdade essencial de todos os bispos, nem priva cada comunidade local da importância que Inácio lhes havia assegurado.
Em segundo lugar, os ortodoxos acreditam que entre os cinco Patriarcas o Papa tem um lugar de destaque. A Igreja Ortodoxa não aceita a doutrina da infalibilidade papal, publicada nos decretos do Concilio Vaticano I de 1870, e ensinada hoje na Igreja Católica Apostólica Romana; mas ao mesmo tempo, a Ortodoxia não nega à Santa e Apostólica Sé de Roma, uma primazia de honra, junto com o direito (sob certas condições) de atender chamados de todas as partes da cristandade. Notem que usamos a palavra "primazia”, não "supremacia."
Os ortodoxos consideram o Papa como o Bispo "que preside no amor", para adaptar uma frase de Santo Inácio: o erro de Roma, assim crêem os ortodoxos - foi tornar essa primazia ou "presidência de amor" em supremacia de jurisdição e força externa. Esta primazia que Roma goza tem sua origem em três factores. Primeiro, Roma foi a cidade onde São Pedro e São Paulo foram martirizados e onde Pedro foi Bispo. A Igreja Ortodoxa reconhece Pedro como o primeiro entre os apóstolos: ela não esquece os célebres "textos Petrinos" nos Evangelhos (Mateus 16, 8-19; Lucas 22, 2; João 21, 5-17) - embora os teólogos ortodoxos não entendam estes textos da mesma forma que os comentaristas católicos romanos modernos. E enquanto muitos teólogos ortodoxos diriam que não apenas o Bispo de Roma, mas todos os bispos são sucessores de Pedro, muitos deles ao mesmo tempo admitem que o Bispo de Roma é sucessor de Pedro de uma forma especial.
Em segundo, a sé de Roma também possuía sua primazia na posição ocupada pela cidade de Roma no Império: ela era a capital, a cidade principal do mundo antigo, e como tal em certa medida ela continuou a ser mesmo após a fundação de Constantinopla.
Em terceiro embora houvesse ocasiões em que o Papa caísse em heresia, de um modo geral durante os oito primeiros séculos da história da Igreja, a Sé Romana se destacava pela pureza de sua Fé: outros patriarcados oscilavam durante as grandes disputas doutrinais, mas Roma geralmente permanecia firme. Quando bastante pressionada na batalha contra os heréticos, os homens sabiam que podiam confiar no Papa. Não apenas o Bispo de Roma, mas todo bispo é indicado por Deus para ser um Mestre da Fé; seja porque a Sé de Roma havia na prática ensinado a Fé com uma destacada lealdade a verdade, era acima de tudo à Roma que os homens pediam orientação nos primeiros séculos, da Igreja.
Mas como com os Patriarcas, também com o Papa; a primazia assegurada por Roma não sobrepõe a igualdade essencial de todos os Bispos. O Papa é o primeiro Bispo na Igreja - mas ele é o primeiro entre iguais.
Éfeso e Calcedónia foram a base da Ortodoxia, mas formam também um marco de ofensas. Os arianos se reconciliaram gradualmente e não formaram um cisma duradouro. Mas até os dias de hoje existem cristãos nestorianos que não aceitam as decisões de Efeso e monofisitas que não aceitam as de Calcedónia. Os nestorianos em sua maioria ficaram fora do Império e se ouviu muito pouco a respeito deles na história bizantina. Contudo, grande número dos monofisitas, particularmente no Egipto e Síria, ficaram súbditos do Imperador, e numerosos e mal sucedidos esforços foram feitos para trazê-los de volta à comunhão com a Igreja de Bizâncio. Como acontece com frequência, diferenças teológicas tornam-se mais amargas por tensões nacionais e culturais. Egipto e Síria, ambos predominantemente não gregos na língua e cultura, ressentiam-se do poder da grega Constantinopla, tanto em questões religiosas como políticas. Assim, um cisma eclesiástico foi reforçado por separatismo político. Não fossem por tais factores teológicos ambos os lados poderiam talvez ter alcançado uma compreensão teológica após Calcedónia. Estudiosos modernos estão inclinados a pensar que a diferença entre monofisitas e calcedónios foi basicamente de terminologia: os dois partidos usavam linguagem diferente, mas intimamente ambos estavam preocupados em manter as mesmas crenças.

V E VI CONCÍLIOS ECUMÉNICOS

A Definição de Calcedónia foi suplementada pelos dois concílios seguintes, ambos realizados em Constantinopla. O quinto Concílio Ecuménico (553) reinterpretou os decretos de Calcedónia de um ponto de vista alexandrino e procurou explicar em termos mais construtivos do que Calcedónia havia usado, como as duas naturezas de Cristo se uniram para formar uma única pessoa. O sexto Concílio Ecuménico (680-681) condenou a heresia monotelista, uma nova forma de monofisismo. Os monotelistas argumentavam que embora Cristo tenha duas naturezas e sendo Ele uma única pessoa, ele tem apenas uma vontade. O Concílio respondeu que se Ele tem duas naturezas, então Ele deve ter duas vontades. Os monotelistas como os monofisitas depreciavam a totalidade da humanidade de Cristo, uma vez que humanidade sem vontade humana seria incompleta, uma mera abstracção. Uma vez que Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, Ele deve ter uma vontade humana assim como uma divina.
Durante os cinquenta anos antes do encontro do sexto Concílio, Bizâncio confrontou um repentino e alarmante acontecimento: o surgimento do Islão. O facto mais surpreendente sobre a explosão do Islão é sua velocidade. Quando o Profeta morreu em 632, sua autoridade pouco se estendia além de Hejaz. Mas em quinze anos seus seguidores árabes haviam tomado a Síria, Palestina e Egipto; nos próximos cinquenta anos eles estavam nos muros de Constantinopla e quase capturaram a cidade; em cem anos haviam varrido o Norte da África, avançado através da Espanha, e forçado a Europa ocidental a lutar por sua vida na batalha de Poitiers. As invasões árabes foram chamadas "uma explosão centrífuga, dirigindo em todas as direcções pequenos corpos de cavaleiros montados, em guerra de comida, saque e conquista. Os antigos impérios não estavam em condições de resistir a eles. O cristianismo sobreviveu, mas com dificuldades. Os bizantinos perderam suas possessões orientais e os três Patriarcados de Alexandria, Antioquia e Jerusalém passaram para controle dos infiéis; com o Império Cristão do Oriente, o Patriarcado de Constantinopla estava agora sem rival. Desde então, Bizâncio nunca mais se viu livre dos ataques dos maometanos e embora tenha resistido mais oito séculos ao final ela sucumbiu.

NICÉIA: O VII CONCÍLIO ECUMÉNICO

OS SANTOS ÍCONES
As disputas referentes à Pessoa do Cristo não cessaram com o Concílio de 681, mas foram expandidas de forma diferente nos séculos oitavo e nono: a luta centrada nos Santos Ícones, as pinturas de Cristo, da Mãe de Deus, e dos Santos, que eram mantidas e veneradas nas igrejas e nas casas. Os iconoclastas ou destruidores de ícones, desconfiados de qualquer arte religiosa que representasse seres humanos ou Deus, exigiam a destruição dos ícones; o partido oposto, os defensores ou veneradores de ícones, defendiam vigorosamente o lugar dos ícones na vida da Igreja. A luta não foi apenas um conflito entre duas concepções de arte cristã. Questões mais profundas estavam envolvidas aí, o carácter da natureza humana de Cristo, a atitude cristã em relação ao assunto, o significado verdadeiro da redenção cristã.
Os iconoclastas podem ter sido influenciados por conceitos dos judeus e islâmicos, e é significativo que três anos antes da primeira erupção do iconoclasmo no Império Bizantino, o califa maometano Yezid ordenou a remoção de todos os ícones de seus domínios, mas o iconoclasmo não foi simplesmente importado de fora; mesmo no cristianismo sempre existiram posições "puritanas”, que condenavam os ícones porque parecia haver nas imagens uma latente idolatria. Quando os imperadores isaurianos atacaram os ícones, eles encontravam bastante apoio dentro da Igreja. Exemplo típico dessa posição puritana é a atitude de São Epifânio de Salamis (315-403), que ao encontrar numa igreja do interior da Palestina uma cortina de pano com figura de Cristo, rasgou-as com indignação. Esta atitude foi sempre violenta na Ásia Menor, e alguns afirmam que o movimento iconoclasta foi um protesto asiático contra a tradição grega. Mas há dificuldades em tal ponto de vista; a controvérsia foi realmente uma divisão dentro da tradição grega.
A controvérsia iconoclasta que durou por volta de 120 anos se dá em duas fases. O primeiro período iniciou-se em 726 quando Leão III começou seu ataque aos ícones, e terminou em 780 quando a Imperatriz Irene suspendeu a perseguição. A posição dos defensores foi mantida pelo sétimo e último Concílio Ecuménico (787), que se reuniu (como o primeiro) em Nicéia. Ícones, o concílio proclamou, devem ser mantidos nas Igrejas e honrados com a mesma relativa veneração como outros símbolos materiais, como "a cruz preciosa e vivificante" e o Livro dos Evangelhos. Um novo ataque aos ícones, começou, com Leão V, o Arménio, em 815, e continuou até 843 quando os ícones foram novamente reintegrados, desta vez permanentemente por outra Imperatriz, Teodora. A vitória final das Santas Imagens em 843 é conhecida como "Triunfo da Ortodoxia”, e é comemorada com o ofício especial celebrado no "Domingo da Ortodoxia," o primeiro domingo da Grande Quaresma. Durante este ofício a Fé verdadeira - Ortodoxia - é proclamada, seus defensores são honrados e anátemas são declarados a todos os que atacam os santos ícones ou os Concílios Ecuménicos: A todos aqueles que rejeitam os Concílios dos Santos Padres e suas tradições as quais estão de acordo com a revelação divina as quais a Igreja Católica Ortodoxa piamente mantém, ANÁTEMA! ANÁTEMA! ANÁTEMA!
O maior defensor dos ícones no primeiro período foi São João Damasceno (675?-749), no segundo São Teodoro Estudita (759-826). João pode trabalhar mais livremente porque ele trabalhava em território islâmico, fora do alcance do governo bizantino. Não foi a última vez que o Islão agiu, sem intenção, como protector da ortodoxia. Uma das características mais distintas da ortodoxia é a posição que ela atribui aos ícones. Uma igreja ortodoxa de hoje é cheia deles: dividindo o santuário da nave existe uma parede, a iconostase totalmente coberta de ícones, enquanto outros ícones são colocados em sacrários em volta da igreja; e as paredes são cobertas por ícones às vezes em fresco ou mosaico. Um ortodoxo prostra-se em frente desses ícones, beija-os e acende velas na frente deles; eles são incensados pelo padre e levados em procissão. O que significam estes gestos e as atitudes? O que significam os ícones e porque João Damasceno e os outros os consideravam tão importantes?
Devemos considerar primeiro a carga de idolatria que os iconoclastas lançaram contra os defensores dos ícones; e então o valor positivo dos ícones como meio de instrução; e finalmente sua importância doutrinal. A questão da idolatria. Quando um ortodoxo beija um ícone ou se prostra diante dele, ele não está cometendo idolatria. O ícone não é um ídolo, mas um símbolo; a veneração feita às imagens é directa, não dirigida à pedra, madeira e tinta, mas dirigida à pessoa retratada. Isto foi salientado por Leôncio de Nápoles (morto cerca de 650) algum tempo antes da controvérsia iconoclasta: Não nos prostramos diante da natureza da madeira, mas reverenciamos e nos prostramos diante dele que foi crucificado na Cruz... Quando dois eixos da Cruz são postos juntos adoro a figura do Cristo que foi crucificado na Cruz, mas se os dois eixos são separados, jogo-os fora e os queimo. Pelo facto dos ícones serem apenas símbolos, os ortodoxos não os adoram, mas os reverenciam e veneram. João Damasceno distinguiu cuidadosamente entre a honra relativa ou veneração dedicada aos símbolos materiais e a adoração devida somente a Deus.

OS ÍCONES COMO PARTE DOS ENSINAMENTOS DA IGREJA
Os ícones, dizia Leôncio, são "livros abertos a nos lembrarem de Deus": um dos meios empregados pela Igreja para ensinar a Fé. Aquele que se ressente de um aprendizado ou de tempo para estudar obras de teologia, basta entrar na igreja e ver desdobrados diante de si nas paredes os mistérios da religião Cristã. Se um pagão te pedir para lhe mostrar sua Fé, diziam os defensores, leve-o a uma igreja e ponha-o diante dos ícones.

O SIGNIFICADO DOUTRINAL DOS ÍCONES
Chegamos agora ao ponto crucial da disputa iconoclasta. Consideremos que os ícones não são idolatrados; que são úteis para a instrução; mas são eles além de permitidos necessários também? É essencial ter ícones? Os defensores assim o afirmavam, pois os ícones salvaguardam uma doutrina total e adequada da Encarnação. Os iconoclastas e os defensores de ícones concordavam que Deus não pode ser representado em sua natureza eterna: "ninguém jamais viu a Deus" (João l, 18). Mas, os defensores continuavam: a Encarnação tornou possível uma arte religiosa representacional: Deus pode ser retratado porque ele tornou-se homem e se fez carne. Imagens materiais, retrucava João Damasceno, podem ser feitas dele que tomou um corpo material:
O antigo Deus, o incorpóreo, o infinito nunca foi retratado. Mas agora que Deus nasceu na carne e viveu entre os homens, faço uma imagem do Deus que pode ser visto. Não adoro a matéria, mas o Criador da matéria, que por minha causa tornou-se material e condescendeu habitar na matéria, que através da matéria realizou minha salvação. Não cessarei de venerar a matéria através da qual minha salvação foi realizada.
Os iconoclastas ao repudiarem todas as representações de Deus, falharam em considerar a Encarnação na sua essência. Caíram, como muitos puritanos já haviam feito, numa forma de dualismo. Considerando a matéria como algo sujo, queriam a religião livre de todo contacto com o que é material; uma vez que achavam que o que é espiritual deve ser não material. Contudo isto significa trair a Encarnação, não permitindo espaço para a humanidade de Cristo, para seu corpo; significa esquecer que o corpo humano, tal qual sua alma, precisa ser salvo e transfigurado. A controvérsia iconoclasta é, pois, estritamente ligada às disputas iniciais a respeito da pessoa do Cristo. Não foi apenas uma controvérsia sobre arte religiosa, mas sobre a Encarnação e a salvação do homem.
Deus tomou um corpo material, provando desta forma que a matéria pode ser redimida: "O Verbo ao se tornar carne, deificou a carne”, disse João Damasceno. Deus "deificou" a matéria, tornando-a "portadora do espírito"; e se a carne tornou-se um veículo do Espírito, então, pode ser pintada ainda que de maneira diferente. A doutrina ortodoxa dos ícones é ligada a doutrina ortodoxa de que toda criação de Deus, material e espiritual, será redimida e glorificada.
Nas palavras de Nicholas Zernov (1898-1980) - o que ele diz dos russos é verdadeiro para todos os ortodoxos:
Os ícones eram para os russos não apenas pinturas. Eram manifestações dinâmicas da força espiritual do homem de redimir a criação por meio de beleza e arte. As cores e linhas [dos ícones] não pretendiam imitar a natureza; os artistas intensionavam demonstrar que homens, animais e plantas, e todo o cosmos, podiam ser salvos de seu actual estado de degradação e restituídos a sua verdadeira "imagem”. Os ícones eram uma promessa da vitória vindoura da criação redimida sobre a decaída... A perfeição artística de um ícone não era apenas um reflexo da glória celestial, era um exemplo concreto de matéria restituída à sua beleza e harmonia original, e servindo como um veículo do Espírito. Os ícones eram parte do cosmos transfigurado.
Como João Damasceno definiu: “O ícone é a canção do triunfo, é uma revelação, e um monumento permanente à vitória dos santos e à desgraça dos demónios”.
A conclusão da disputa iconoclasta, o encontro do Sétimo Concílio Ecuménico, o Triunfo da Ortodoxia em 843 - marcam o final do segundo período na história ortodoxa, o período dos Sete Concílios. Estes Sete Concílios são de imensa importância para a Ortodoxia. Para os membros da Igreja Ortodoxa, seu interesse não é meramente histórico, mas contemporâneo; eles são considerados não apenas pelos estudiosos e pelo clero, mas por todos os fiéis. "Mesmo camponeses simples”, disse Dean Stanley, "para quem, na sua correspondente classe social na Espanha ou na Itália os nomes de Constância ou Trento seriam provavelmente desconhecidos, estão bastante cônscios que sua igreja repousa sobre a base dos Sete Concílios, e tem esperança que viverão ainda para ver um oitavo Concílio Ecuménico, no qual os mal entendidos do tempo serão esclarecidos." Os ortodoxos frequentemente se denominam "a Igreja dos Sete Concílios." Isto não significa que a Igreja Ortodoxa tenha cessado de pensar criativamente deste 787. Mas vêem no período dos Concílios a grande era da teologia; e logo após a Bíblia, são os Sete Concílios que a Igreja Ortodoxa considera como sua referência e guia ao buscar soluções para os novos problemas que surgem a cada geração.

Arcebispo Primaz Katholikos
Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano
Igreja Católica Ortodoxa Hispânica